quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ACÍDIA

É interessante observar o quão superficial nos são passados os ensinamentos bíblicos. A leitura aprofundada que fiz para escrever essas poucas linhas sobre um assunto tão vasto me mostrou um outro mundo no que diz respeito aos Pecados Capitais. A Acídia ou preguiça é um daqueles pecados que deveríamos confessar todos os dias. A acídia tem uma dimensão muito maior do que a preguiça, eu ousaria até a dizer que ela não é um simples pecado, mas uma condição. É a negação do movimento, a inércia no que diz respeito ao crescimento pessoal. É aquela tristeza do coração que impede o homem de manifestar as glórias do Pai, impedindo-o de realizar a tarefa para a qual ele foi criado. Nas aulas de catecismo nos mostram a idéia de que ela é apenas um desânimo ou falta de interesse de concretizar algo proposto. Em relação a isso, informo aos caríssimos leitores que historicamente devemos atribuir aos primeiros monges do século IV, especialmente a Santo Antão e São Pacômio as fantásticas descobertas da alma que hoje nos servem como referência aos estudos do ser e o papel da alma na nossa caminhada evolutiva. Posteriormente homens como São Gregório Magno que graças a uma excepcional inteligência e enlevo espiritual investigou a fundo essas descobertas e relacionou os sete principais vícios a que todos nós somos suscetíveis, dando a esses princípios o nome de Sete Pecados Capitais. Capitais porque cada um deles tem a capacidade de atrair uma infinidade de outros pecados. Os conhecemos como a vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça ou acídia.

Não é de se estranhar que a idéia de pecado nos acompanha desde a infância quando nas aulas de catecismo nos são apresentados os Sete Pecados Capitais. “Jesus morreu na cruz para nos salvar” dizem os catequistas. Já nascemos culpados e devendo. O pecado anda de mãos dadas com a idéia de contravenção. Na psicologia ele é interpretado como uma falta de bom senso ou incoerência sobre o nosso modo de viver e os dogmas religiosos.
Os Pecados Capitais sempre foram e acredito que sempre serão motivo de controvérsias e discussões entre religiosos e aqueles que estão longe de se converterem a algum credo. E a Acídia como já citei não é apenas um pecado e sim uma condição, é um estado da alma decorrente a contemplação de si mesmo e do mundo em que vivemos. Quando contemplamos a nos mesmos a alma indaga sobre o sentimento das coisas e distingue entre a realidade e a atualidade, assuntos exaustivamente explicados em profundidade nos ensinamentos rosacruzes. Quando a mente desperta para a noção de realidade inconsciente passa a reagir de modo a fugir dela. O francês Blaise Pascal se refere a isso quando diz que “o homem não consegue ficar sozinho consigo mesmo num quarto”. A profunda contemplação de si mesmo pode levar o indivíduo a duas situações opostas. Uma delas é um estado de grande euforia e arrebatador entusiasmo. Isso porque, ao analisar as coisas ao redor, a alma chega à conclusão de que o mundo – criado por Deus, que é o perfeito Bem e só pode dar origem a coisas boas – é maravilhoso demais. O Universo infinito com astros cintilantes, a água cristalina, a delicada flor, os olhos de uma criança, o amor de Deus: tudo é indescritível e extraordinariamente belo, e a consciência disso produz uma alegria igualmente indizível.
Entretanto, conhecer-se profundamente provoca outra situação – o desespero. O homem se vê só, destituído de tudo o que possa disfarçar sua condição, considerando-se um ser insignificante diante do mundo infinito, sem saber de onde veio, para que veio e para onde vai. O resultado é a tristeza, a depressão, a inatividade, a angústia. “Isso acontece porque, como ensina Tomás de Aquino, o homem, como criatura de Deus, procede do nada, Deus o criou do nada”. “Em si ele é treva. Só é luz na medida em que participa do ser de Deus.” Dada essa capacidade de fazer a alma transitar da euforia à depressão.
Baseado nesse pensamento podemos perceber a perspicácia de Pascal ao notarmos que criamos uma série de atividades quando estamos parados pensando em nós mesmos e na nossa condição humana. Para os católicos a Preguiça representa o sétimo pecado capital. Pecado esse que é muito mais da alma que resiste a ser crédula, do que do corpo que não quer sair da letargia, da falta de compromisso, do crescimento, do movimento e da pró-atividade. Muito além do conceito religioso, podemos analisar a Acídia como a negação do movimento que automaticamente leva o indivíduo ao fracasso, sem nos darmos conta de que estamos provocando uma auto-sabotagem, sendo protagonista de nossas mazelas, seguimos insatisfeitos e cegos pela impossibilidade de conquistar nossos objetivos, culpando tudo e a todos pelas intempéries da vida e a nossa falta de auto-estima.
Quanto a outros sentimentos como a luxúria e a avareza que são bem entendidos por assim dizer, pela maioria dos cristãos a acídia passou despercebida, e somente após a Revolução Industrial do Século XVIII, que passou a ser mal traduzida para palavra preguiça.

Se nos reportarmos aos monges João Cassiano que viveu no século V e a Gregório Magno no século VI com o intuito de pesquisarmos sobre as origens da doutrina dos Sete Pecados Capitais veremos que eles têm em comum, uma visão da realidade mais concreta. Ambos estudaram os nossos vícios, fazendo surgir à doutrina dos pecados capitais que posteriormente foi formatada por São Tomás de Aquino, este grande sábio enumerou esses vícios capitais em: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Hoje, em lugar da vaidade, a Igreja coloca a soberba e em lugar da acídia é mais freqüente encontrarmos a preguiça na lista dos vícios capitais. Para muitos estudiosos a substituição da palavra acídia por preguiça causou um empobrecimento do termo devido ao fato de que sendo um pecado capital ele se desmembra em outros menores cujos nomes soam estranhos para o mundo contemporâneo como é o caso da acídia. Não que esses adjetivos sejam reservados a especialistas, apenas foi usada uma terminologia da época, um exemplo disso é o pecado da inveja que era chamada sussurratio que traduzido seria murmuração.

São Tomas de Aquino nos ensina que os pecados recebem o nome de capitais por derivar-se da palavra caput: cabeça, chefe. Todo vício capital esta no ápice dos maus hábitos cuja liderança cria uma cadeia de variações. A esse desmembramento São Tomás deu o nome de “filhas” desses vícios. Ele dedicou atenção especial a Acídia quando entendeu que o desdobramento deste sentimento, é a tristeza, angústia e a ansiedade, sentimentos perversos que consomem o ser humano incapacitando-o de concretizar seus objetivos e sonhos.
Na inércia ou na atividade, o homem não consegue fugir do desconforto de si mesmo, posso citar o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, que afirma: “Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim”.
Voltando a São Tomás pareceu-me que ele pretendia explicar que acídia é a tristeza que nos paralisa, que não quer que caminhemos para a Luz. Hoje vejo muitos buscadores com o domínio da letra, mas sem a essência elevada dos ensinamentos espirituais. Acredito que a Providência Divina permite que esses buscadores conquistem o conhecimento até um determinado ponto e em seguida coloca a Acídia, a tristeza que paralisa, para testar a sua mão e o manejo da espada (trabalho) criando dificuldades de todos os lados para que ele tenha a certeza da sua busca espiritual e da conquista do Castelo da Ventura. A Providência Divina testa a todos com o desânimo, a falta de fé e entusiasmo, ficamos paralisados e essa falta de ação nos faz refletir; “Devo continuar? Será que estou no caminho certo? Aonde isso tudo vai me levar?”. Muitas vezes somos levados a esses questionamentos porque a Acídia nos induz a dúvidas sobre a nossa busca espiritual. Dúvidas que parecem estar em segundo plano na nossa mente como, “quem é você para querer elevar-se a alturas tão grandes?”. E eu respondo com outra pergunta; “E quem você para não sê-lo?”. Nesse momento nos deparamos com a primeira das filhas da Acídia; o desespero. Durante anos estudamos com firmeza e dedicação, na esperança de que a Luz se manifestasse com todo o seu esplendor em nosso coração, mas estamos paralisados pela dúvida e a tristeza da acídia. Tentamos de todas as maneiras encher nosso coração de entusiasmo, mas lá, ele não encontram guarita. Questionamos se devemos ser grandes ou voltarmos a sermos simplesmente humanos, muitas vezes esquecemos nossa natureza espiritual e nossa filiação com o Pai, abandonamos a nós mesmos na floresta dos erros, esquecendo nossa natureza espiritual.
Além do desespero que é a falta de esperança acompanhada de raiva, apresento nesse pequeno compêndio as outras filhas da Acídia;
Pusilanimidade: É a falta de coragem para se impor, é a timidez excessiva.
Divagação da Mente: É o ato de fantasiar, criar estórias na mente para compensar alguma coisa que não aconteceu da forma que gostaríamos que acontecesse.
Torpor: É a inação do espírito, indiferença.
Rancor: O Rancor é aquele ódio não manifestado, profundo, em estado latente.
Malícia: Malícia é a esperteza, a astúcia com que enganamos os outros.

Muitas vezes com a mente entorpecida pelas filhas da acídia, falamos de fé ao mesmo tempo em que nos sentimos sem esperança, falamos de amor e deixamos o ódio pelo nosso semelhante tomar conta do nosso coração. Deixamos as ilusões da matéria tomar conta de nosso ser e somos levados ao desespero pela perda do foco nos nossos estudos de retornar a casa do Pai.

A acídia se manifesta assim, impede o homem de expressar sua filiação e nobreza espiritual. Sacudindo seu espírito na irriquietação e tagarelice impondo dúvidas e medo na inconstância da decisão e na vulnerabilidade do caráter. Em suas fraquezas o homem perdeu a capacidade de habitar em si mesmo caminhando sem rumo e se acovardando diante da grandeza de suas capacidades. Na verdade caríssimos leitores, não acho que temos medos de sermos fracos, na verdade mesmo, temos medo de sermos capazes além da conta, porque em minha opinião não são as trevas que tememos, e sim a Luz que podemos irradiar.
E nessa fuga de si inconformado pela aridez do seu interior em desespero, o homem procura por mil caminhos, aquele bem que só a serenidade de um coração puro preparado para o sacrifício e senhor de si empunha a espada do trabalho e luta pela plenitude de uma vida inteiramente vivida, e não a vida nas fictícias ilusões da matéria. Na atualidade dessa vida ilusória, o homem já se esqueceu que é um ser de luz e reveste-se de personagens usando mascaras sociais para manifestar um ser que não passa de uma ilusão, distanciando mais ainda o ser de sua verdadeira essência.
Que a Divina Sophia nos ilumine sempre.

Um comentário:

Julia Peccini disse...

Olá Renato, esse post foi publicado faz muito tempo então não sei se você verá esta mensagem. Nos últimos dias fico me deparando com a palavra Acídia e tentando encontrar o real significado dela e acredito que esse será diferente para cada pessoa. Sou católica e já li muitos textos dizendo que a acídia é um dos pecados capitais e que não deveria ser praticado, mas não seria mais um caminho que nos é dado nessa caminhada? Veja, com a reflexão dada tanto por coisas boas ou ruins da vida nos encontramos mais perto de nós mesmos, e achamos respostas que estávamos procurando e porque a acídia não pode ser assim também? mesmo sendo retratada como uma coisa estritamente negativa? Acho que podemos aprender com ela o que realmente queremos, descobrimos nossos medos e desejos. Talvez isso, por ser tão terrível e temível pelas pessoas, é o motivo de não ter uma reflexão aberta sobre a palavra. Então, em que acreditar sobre essa palavra? O que você acha dela?

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