domingo, 9 de setembro de 2018

O QUINTO PORTAL - OS OITO PORTAIS DO CAMINHO


Por Yoskhaz
No meio da tarde, depois de procurar por quase todo o mosteiro, fui encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no refeitório. Ele se entretinha com um pedaço de bolo de aveia e uma caneca de café enquanto conversava com o cozinheiro. Ambos eram homens bem-humorados e cheios de histórias interessantes para contar. Quando me viu fez um aceno para eu me sentar com eles. Raimundo, um brasileiro natural do Ceará, tinha percorrido o mundo a bordo de um navio mercante até sossegar, há tempos, na cozinha do mosteiro, localizado nas montanhas dos Pirineus. Ele era muito querido por todos na Ordem, seja pela sua simpatia, seja pelos dotes culinários. Raimundo contava uma aventura vivida no Vietnã. De folga do serviço quando o navio atracou, procurou por uma igreja por sentir um grande desconforto na alma, o qual não conseguia identificar o motivo. Sem conhecer a cidade portuária, andou a esmo pelas ruas até se deparar com um templo budista. Como os portões estavam abertos, entrou. Subiu a escadaria e encontrou um grande salão. Estava vazio. O perfume dos incensos, uma música suave que se misturava ao som do silêncio, tornavam o lugar acolhedor. Sentou-se e rezou. Como vinha de uma família sem hábitos religiosos, nunca aprendera a rezar. Assim, rezou ao seu modo, conduzido pela pureza do coração. Como sentia uma vontade inexplicável de “conversar além das coisas do mundo”, perdeu-se nas horas. Quando terminou um monge budista que o observava se aproximou. O monge budista se declarou encantado com a aura clara de Raimundo. Disse que a pureza da sua prece tinha iluminado o templo e agradeceu por isto. O cozinheiro confessou estar se sentindo bem melhor do que quando ali entrara. Meteu a mão no bolso, tirou algum dinheiro e entregou ao monge budista. Disse que deveria ter como destino a manutenção do templo, pois achava importante que aquele lugar fosse conservado para que outras pessoas pudessem se beneficiar, assim como acontecera com ele. O monge budista, que nada pedira, arqueou os lábios em sorriso e acenou com a cabeça em agradecimento. Raimundo acrescentou que aquele dinheiro era também com a intenção de obter algum merecimento do Alto, pois quase nada entendia sobre esses assuntos. Neste instante, sem perder a serenidade, o monge budista lhe devolveu o dinheiro. Disse que não podia aceitar; que Raimundo não ficasse zangado nem o levasse a mal. Mas ali não era um mercado de trocas; era um templo. Um local de conexão com o sagrado que habita em todos nós. Explicou que a caridade era uma linda virtude, desde que isenta de qualquer interesse, seja material, ainda que espiritual. Argumentou que devolvia o dinheiro para o bem do próprio Raimundo, pois a caridade ligada a qualquer recompensa se torna um empecilho à jornada cósmica do benfeitor.
Interrompi para dizer que o monge budista tinha sido deselegante e rigoroso. O cozinheiro ponderou que, embora tivesse ficado desorientado, aquele fato o ajudou a entender bastante sobre a caridade, uma das vertentes da misericórdia; o perdão é a outra. Falou que a partir daquele fato pôde iniciar o entendimento de como se relacionar com Deus, o Universo, o Reino dos Céus, o Infinito, o Grande Mistério ou qualquer outro nome usado nas várias tradições místicas.
Olhei para o Velho a procura da sua opinião. Ele sorriu e explicou: “A misericórdia é uma virtude pouco entendida em suas variantes. Assim como o perdão, a caridade possui vários degraus. Entendê-los é primordial para se conhecer a misericórdia em toda a sua amplitude.”
“Muitos praticam a caridade como compensação espiritual aos seus maus feitos; nestes casos ela é vazia por absoluto. Em verdade, estão à procura de perdão por eventuais erros. Outro erro. Por se tratar de perdão, não há nada para se comprar nem para se vender. Metafisicamente a ideia de negociar o perdão é simplesmente absurda.”
“Outros praticam a caridade como tentativa de, em troca, obter favores materiais. Uma barganha ridícula. Algo como, ‘eu socorro aos necessitados e, em contrapartida, Deus me ajuda’. Muitos agem assim como se estivessem diante de um balcão de favores e interesses. A decepção será enorme.”
“Há os perdidos. São aqueles que negociam a caridade no ‘mercado futuro de ações’. Prometem que ajudarão a um orfanato caso acertem na loteria ou fiquem milionários em seus negócios. Ou seja, imaginam Deus como um menino ingênuo. Pedem muito e, se forem atendidos, colaborarão com uma parte. Apenas uma parte. Somente os tolos imaginam que algo assim possa se tornar um ato de caridade. Nunca serão levados a sério.”
“Existem os sombrios. Fazem a caridade por orgulho ou vaidade. Seja para se sentirem maiores diante dos outros, seja para serem admirados em sociedade. Sempre dão um jeito de divulgar ‘a boa ação’, não raro, se valendo de falsa humildade. Uma esmola que de jeito nenhum se caracterizará como caridade por sua desprezível motivação. Um ato rasteiro jamais se considerado uma virtude.”
“Não esqueçamos dos medrosos. Atendem aos necessitados por terem medo de serem castigados pelos Céus. Não fazem por amor, mas por temer a perda dos bens materiais que possuem em virtude de suposto ‘castigo divino’. Serão ignorados. Esqueça a ideia de castigo. Não existe virtude nem evolução pelo medo. Deus nos quer corajosos e conscientes do amor existente em cada uma das nossas escolhas.”
“Incautos todos, praticam a caridade na expectativa de iludir a si ou aos bons espíritos quanto aos verdadeiros sentimentos que animam o seu coração. Acreditam que a casca impedirá o caroço de se revelar. Enganam-se ao pensar que nas Terras Altas alguém se ilude com a aparência sem prestar atenção à essência.”
O Velho fez uma pausa para bebericar o café. Aproveitei para falar que, embora nunca tenha me ocorrido a desfaçatez de propor algum tipo de barganha através da caridade, todas as vezes que a pratiquei foi para ver a alegria do beneficiário ou com o intuito de me sentir melhor. O Velho me olhou, sorriu e elogiou: “Uma bela e nobre atitude!” O meu ego vibrou. Mas por pouco tempo, pois, em seguida, ele ponderou: “Se não fosse por algum desses motivos, de ver a alegria do outro ou de se sentir melhor, você teria feito a caridade?” Mesmo sem entender a profundidade da pergunta, confessei que não.
O bom monge argumentou: “Praticar o bem para se sentir melhor, embora tenha inegável valor, ainda nos deixa aquém do último degrau e mais amplo sentido da caridade. Quando fazemos isso incorremos em dois perigos. Um deles é, inconscientemente, na qualidade de benfeitor, se sentir em estágio acima do beneficiário pelo mero fato de o socorrer, como se o poder material significasse superioridade espiritual. São conhecidas as histórias de anjos maltrapilhos a esmolar para revelar o coração dos homens. O ato de ajudar para se sentir melhor, em análise profunda, representaria apenas um bom exercício para um ego ainda desalinhado à alma na procura pelo pedaço que lhe falta. Busca fora aquilo que adormece dentro.”
“É comum usar o socorro a alguém para completar algo que nos falta. Dentro de nós. ‘Dou amor para receber amor’. O vazio afetivo e a desordem emocional terminam por fazer que as pontas se troquem. O benfeitor, em verdade, é o beneficiário da caridade por ele praticada. Assim, o fim termina em si mesmo.”
“O outro perigo ocorre em ocasiões nas quais o benfeitor está desprovido do melhor entendimento quanto à caridade. São situações onde ocorrem algumas decepções. É comum o beneficiário não agradecer a ajuda recebida. Pelo contrário, se sente ainda mais miserável por não conseguir suprir as próprias necessidades, por viver em dependência. Não consegue entender o gesto de amor; a ajuda recebida dilata o incômodo pelas diferenças existentes; revolta-se diante das desigualdades e nega a lição de amor recebida. Quem não faz a caridade por amor, perdido na incompreensão, irá se frustrar nesse momento. Há casos em que o benfeitor se desanima diante das dificuldades inerentes à luz; amaldiçoa a humanidade. Esses é um dos motivos pelos quais a caridade, além de um gesto de amor incondicional, deve ser anônima.”
“Fazer pela alegria do outro deve ser um gesto de amor. Fazer por amor é como plantar flores para tornar mais bonita e agradável a estrada de desconhecidos caminhantes. Sem que nada se saiba sobre o semeador.”
“Que a alegria pela alegria do outro seja sempre um contentamento, jamais uma dependência. Lembre que a alegria está no âmago do ser. Compartilhar aquilo que temos de melhor nos faz sagrados. Sagrados com o outro; con-sagrados. No entanto, não esqueça que a semente para germinar precisa de solo fértil. Nem sempre o encontraremos; nem por isso devemos desistir ou lamentar. O amor reside em dar. Somente em dar; receber é efeito que não se deve esperar; não é típico do amor. O amor nada espera. Quando se usa a caridade para a satisfação própria, ainda que exista assistência, não há benevolência.”
“Outro equívoco comum é imaginar que a caridade apenas é possível através de contribuições financeiras. Ledo engano. A caridade emocional tem valor incomensuravelmente mais alto do que a ajuda material. Sem dúvida, o mundo precisa de melhor distribuição de renda para uma convivência mais humana. No entanto, a humanidade carece mais de abraços e compreensão do que necessita de cheques. Esta é maravilha da misericórdia que a torna acessível a todos. Ninguém é tão pobre que não possa dispor de um pouco de compaixão, paciência e carinho para alguém que esteja desamparado. Muitas vezes dentro da própria casa. Sim, a caridade afetiva se inicia em família. Antes de salvar o mundo o indivíduo deve apagar o incêndio que arde a sua casa.”
“A História nos conta que as pessoas que mudaram o destino do mundo, aquelas que sustentam espiritualmente o planeta, em sua maioria, nunca tiveram mais do que poucas moedas no bolso.”
Interrompi para falar que a caridade era muito complexa. O Velho concordou, em parte: “Complexa pela sua simplicidade.” Eu disse que não tinha entendido e quis saber qual seria o degrau mais alto da caridade. O monge foi didático: “No sermão proferido na montanha o Mestre nos orientou que a ‘mão esquerda não deve saber o que faz a direita.’ Esta lição traz em si vários ensinamentos.”
“Ele dizia, em superfície, que não devemos propagandear qualquer ajuda praticada. Isto seria como promover um baile para as sombras do orgulho e da vaidade. Outra razão é para o beneficiário, quando possível, não saber quem foi o benfeitor. Assim não haverá dívidas de qualquer espécie, obrigações de agradecimento nem sensação de desigualdade entre os envolvidos. Lembre que a caridade, acima de tudo, é um ato de amor. O amor apenas se completa na sua incondicionalidade, sem a necessidade de julgamentos, reconhecimento ou contraprestações. Caso contrário, é um amor ainda imaturo; ou mesmo, não é amor.”
Bebeu mais um gole de café e prosseguiu: “Em profundidade, quando o Mestre diz que ‘a mão esquerda não deve saber o que faz a direita’ alerta ao próprio benfeitor a não exaltar o feito nem mesmo para si. Afinal, caridade também não pode se tornar uma festa para o ego dançar, ainda que sozinho, longe dos olhares públicos. Há que se ter humildade e compaixão. A caridade é um gesto natural de amor praticado por uma alma plena. Faz-se a caridade porque se tem amor no coração. E amor existe para alicerçar os pilares do próprio templo, a sua consciência. A caridade deve ser como sementes lançadas ao vento para florir em terras desconhecidas. Pessoas que talvez nunca encontremos, lugares que talvez jamais voltaremos. Qualquer outro propósito se perderá por inadequação. O andarilho faz e caminha. Não olha para trás.”
“O físico alemão Albert Einstein dizia que ‘o mundo dos fatos nem sempre conduz ao mundo dos valores’. Ou seja, fazer o bem, por si só, não torna um homem um bom. Não basta a existência da fruta para se conhecer a árvore; nem todos os frutos são doces. Para tanto é preciso aprofundar à sua essência. Lá está o gosto e o mel. Pratica-se o bem por muitos motivos, nem todos virtuosos. O bom pratica o bem sem qualquer esforço ou interesse. O bom tem consciência de que fazer o bem não traz em si qualquer mérito; fazer o bem não lhe cansa; não causa tédio.  Trata-se de exercício indispensável a um ser que transborda em amor. Significa uma alma que já despertou em si a sabedoria sobre a serventia do amor.”
O Velho tinha razão. A caridade é ato de puro amor. Puro de subterfúgios, de motivações escusas e intenções inconfessáveis. É preciso viver o amor em si para praticar a caridade no mundo. Quando eu achei que o assunto tinha findado, fiz menção em me levantar para procurar um canto onde pudesse refletir aquelas palavras, o Raimundo comentou que mais profundo era o entendimento e a prática de outra vertente da misericórdia, o perdão. O Velho concordou: “O perdão é a caridade espiritual.”
Tornei a me acomodar na cadeira e a encher a minha xícara com café. Falei que o perdão não era uma virtude difícil de ser praticada. Raimundo teve uma troca marota de olhares com o Velho e me perguntou se eu já perdoara todas as pessoas que algum dia me magoaram. Respondi que sim. Já não desejava mal a elas nem alimentava qualquer ressentimento. Algumas eu ainda não me relacionava, pois, o erro tinha sido delas. Portanto, cabia, após se arrependerem, virem até a mim. Acrescentei que eu as receberia com boa vontade. Os dois tornaram a se olhar em cumplicidade de pensamentos. Eu tinha caído em uma armadilha muito comum, a ilusão do perdão.
O Velho explicou: “Assim como a caridade, o perdão tem alguns degraus de entendimento. Algumas mais brandas, outras mais severas, todas as mágoas são prisões espirituais. A mais cruel faz surgir o desejo de vingança como engano de superação quanto ao mal sofrido. É a masmorra criada pelo ápice do ódio em situações emocionais mal resolvidas. Vale ressaltar que a resolução do perdão não está no outro, mas em si mesmo. Não importa o que tenha acontecido, nada mais precisa acontecer para que brote o perdão.”
Colocou mais uma fatia de bolo no prato e continuou: “O perdão é sábio. Pois, se fico na dependência da boa vontade do outro para a solução do conflito, concedo a ele o poder sobre a minha vida. A cura do ressentimento, que tanta dor causa, possível apenas através do perdão, ficaria em suspenso por tempo indefinido até que o suposto detrator atinja a consciência de rever equívocos, pedir desculpas e reparar o mal. Isto pode demorar milênios e me deixaria aprisionado à cela da mágoa, aleijado de espírito por tanta dependência emocional.”
“‘Se pedir desculpas, eu perdoo’, justificam. Estes nada entendem sobre o perdão. O perdão para ser verdadeiro não exige qualquer condição. O perdão é um gesto de amor. Para os sábios o perdão é uma pista de decolagem para voos inimagináveis.”
“Pior, muita da raiva que se sente não surgiu por causa de um erro alheio. O mero fato de alguém não desejar o meu desejo pode se tornar uma mágoa quando estou desequilibrado. O mundo tem o direito de pensar e escolher diferente do que penso e escolho. Mas costumo esquecer disto. A não aceitação da liberdade alheia é a causa mais comum do tolhimento da própria liberdade. A incompreensão quanto as escolhas alheias, mesmo as legítimas, são fontes de muitos ressentimentos. As mágoas são as grades fechadas por um ego primitivo, selvagem e bestializado.”
“O entendimento e a prática do perdão como um ato de amor incondicional é a autorização concedida a si mesmo para ser livre, digno, feliz e vivem em paz. Perdoa-se para ser pleno.”
“O perdão não se trata apenas do ‘não querer mal’, mas é desejar que todos os envolvidos sejam envolvidos em luz. Inclusive você. Na luz existe amor. Na luz o mal não sobrevive.”
“Do contrário, se dependermos de qualquer atitude de outra pessoa para o perdão se completar, estacionaríamos na neutralidade da existência. Restaríamos estagnados. A vida exige movimento e virtude. O amor nos conduz para o polo positivo do universo. O perdão é o barco que nos permite atravessar até a outra margem. O perdão é uma das mais sagradas maneiras de amar.”
“Perdoe-se e peça perdão sempre que necessário; tente, se possível, reparar o equívoco praticado. A partir daí, questão encerrada; siga em frente.” Questionei se era tão simples.  O Velho anuiu: “Sim, em verdade, embora profundo, é bem simples. Se o outro não aceitar o perdão, seja o solicitado, seja o oferecido, será uma questão interna dele na qual não cabe mais nenhuma atitude ou interferência. Não se pode interferir nas escolhas alheias, no entanto não permita que elas lhe aprisionem.”
Raimundo interrompeu para dizer que todos os egos irredutíveis quanto ao perdão devem procurar um terapeuta para se tratar. O bom monge riu pelo modo incisivo do cozinheiro em se expressar, mas concordou com ele. Discordei. Insisti que a questão não era tão simples assim. O Velho manteve a posição: “Sim, é simples. Sofisticadamente simples. Contudo, apenas tenha a consciência de não banalizar o perdão. Livre-se da culpa que paralisa; aceite o compromisso com a transformação. Assuma a sincera responsabilidade perante a si mesmo de fazer diferente e melhor da próxima vez. Valorize o sentido e a intenção do gesto para não vulgarizar uma atitude tão bonita; aproveite o fato para crescer. Não se pede perdão na prática de um ato vazio de virtudes, com palavras que não tenham a devida carga de compromisso. Mova-se através de bons sentimentos e ideias nobres. Tampouco se perdoa sem tais princípios, pois seria mera ilusão. O perdão para ser verdadeiro precisa trazer em si várias virtudes que o constroem. Amor, humildade, simplicidade, compaixão, generosidade, delicadeza, sinceridade, honestidade e coragem, muita coragem. Apenas os fortes perdoam e pedem perdão.”
Calamo-nos por um tempo. Raimundo percebeu os meus pensamentos longínquos e disse que poucos se dão conta sobre a grandeza de viver a misericórdia em total amplitude. Concordei. O Velho aprofundou a conversa:  “Não à toa, a misericórdia é a quinta Bem-aventurança. Não sem motivo é o Quinto Portal do Caminho. Para tanto se faz necessário ter ultrapassado os quatro portais anteriores, apenas possível quando se traz em si muitas outras virtudes já sedimentadas na alma. A misericórdia é uma das mais sublimes maneiras de amar.  Também é uma das palavras mais lindas pela sua construção, que aliás traduz toda a luz contida nessa virtude. Misericórdia é a junção do antepositivo ‘miser’ com o termo latino ‘cordis’, que significam desventura e coração, respectivamente. Ou seja, misericórdia é o ato sagrado de oferecer amor como bálsamo ao sofrimento de alguém. Serve também em relação a si mesmo. Amar-se como terapia de cura é ato primordial para amar o mundo como indispensável método de expansão do ser.”
O Velho esvaziou a xícara de café e finalizou: “Paulo, o apóstolo do povo, tinha razão quando escreveu em sua carta mais famosa que ‘sem amor eu nada serei’. Amoré a palavra que sintetiza toda a evolução.”
Raimundo pediu licença, pois tinha o jantar para preparar. Em seguida, o Velho também se levantou. Iria ler na biblioteca do mosteiro. Fiquei vendo o bom monge se afastar com os seus passos lentos, porém firmes.
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Fonte: www.yoskhaz.com

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A CADEIA DE UNIÃO


Por Renato Cardoso

A “cadeia de união” é uma tradição que se encontra ao mesmo tempo no meio místico e maçônico. Ela consiste em formar uma cadeia, dando-se mutuamente as mãos. Ela também aproxima afetivamente todos os corações, ao mesmo tempo em que reanima nas consciências o sentimento de solidariedade que nos une e a interdependência que nos liga.
Nos nossos trabalho de cura, não há dúvida de que quem participa conscientemente, da cadeia ritual, sente seus efeitos reconfortantes.
Ela parece preparar de modo eficaz um ambiente propício para fazer do encerramento dos trabalhos algo mais do que uma simples formalidade.
Marius Lepage uma maçom que viveu na França no inicio do século passado, expôs de forma impecável os princípios essências que fazem da cadeia de união algo mais do que um simples gesto sem importância. Diz ele:
“Os ritos entre outras funções essenciais, unem o visível ao invisível. Eles constituem um elo fluídico que une o corpo maçônico, constituído pelo espírito maçônico ou místico que se desprende dos Templos materiais.
“O princípio da cadeia de união deve ser provavelmente procurado na teoria do ponto ou sinal de apoio”. Toda vontade que quer se manifestar, tem necessidade de um intermediário, que seja, ao mesmo tempo, uma sólida base de partida.”
O segredo da Cadeia Mágica de União, escreve Stanislas de Guaita, resume-se num aforismo cujos termos são os seguintes: Criar um ponto fixo onde se possa tomar apoio; estabelecer aí um cadeia psicodinâmica; e, desse ponto, escolhido como centro, fazer brilhar através do mundo a luz astral, fortalecida por uma vontade nitidamente definida e formulada.
Ao mesmo tempo criadora e receptiva, a cadeia de união representa junto ao estudante martinista o duplo papel de escudo protetor e de aparelho receptor de influências benéficas.
Toda coletividade, toda associação tem o seu correspondente nos mundos invisíveis. O espírito de um grupo como o nosso é um ser vivo muito poderoso.
A cadeia de união é um símbolo formado por múltiplos anéis interligados entre si, sem princípio nem fim, que evidencia a união perfeita daqueles que aceitam unir-se por laços fraternos. Assim é uma cadeia de união, uma interligação entre pessoas que formam um corrente dentro do Templo, entrelaçando-se braços, unindo-se corpos e mentes numa demonstração e confirmação de bons propósitos teóricos e práticos.
A Cadeia de união que formamos dentro de um Templo simboliza a união fraterna em prol de um bem maior que é  o reestabelecimento da saúde dos peticionários.
Nos reportando ao passado, concluiremos que no princípio, na origem da Cadeia de União, ela estava presente na vida do homem primitivo, que sentado em forma de círculo aproveitava o calor da fogueira, organizava sua vida social próximo a outros especialmente a noite, obtendo dos mais velhos, o conselho certo e a troca de experiências de vida daqueles que detinham autoridade.
Em relação aos Astros, podemos verificar que eles se movimentam em círculos e em cadeias. O Sistema Solar, a rotação dos planetas, e a própria Terra, obedecem  Leis Simples e claras movimentando-se em círculos movimentando energias e harmonizando tudo em torno no interior de si.
Para Eliphas Levi, a Cadeia de União é o grande agente magnético que denominamos Luz Astral e que outros chamam de Alma da Terra, ele, o agente é a chave de todos os mistérios, os segredos de todos os poderes. E quem souber se apoderar desse agente, será depositário do próprio poder de Deus porque todo o poder oculto está aí.
O domínio desse agente se da por duas formas sequenciadas, concentração e projeção. Isso me faz lembrar mais uma vez dos nossos rituais de cura, onde sentados em círculo ou em pé com as mãos entrelaçadas concentramos nossas energias para em seguida emana-la aos peticionários.

Fazer uma cadeia de união mágica é estabelecer uma cadeia magnética que se torna mais forte dependendo das nossas intenções. Por isso devemos realizar os nossos rituais de cura com o máximo de concentração nos nossos objetivos, que no caso são os nomes da lista mensal. É sabido que práticas firmes produzem uma corrente magnética poderosa. Uma cadeia bem formada é como um turbilhão que arrasta e absorve tudo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

BREVE BIOGRAFIA JEAN BAPTISTE WILLERMOZ


Jean Baptiste Willermoz, nasceu em Lyon em 10/07/1730, era filho de Claude e Caterin Willermoz, comerciante da cidade. Devido às necessidades da família foi obrigado a deixar os estudos aos 12 anos de idade para ajudar seu pai nos negócios, três anos mais tarde ingressou como aprendiz numa loja especializada no comércio de sedas.
Tendo aprendido a profissão, instalou-se, aos 24 anos, por conta própria produzindo o comercializando sedas. Havia sido iniciado na Maçonaria aos 20 anos de idade, dois anos depois já era Venerável da Loja, no ano seguinte, 1753, fundou sua própria Loja Maçônica, A PERFEITA AMIZADE, a qual teve um rápido desenvolvimento realizando estudos ocultistas, principalmente a alquimia.
Willermoz permaneceu Venerável dessa Loja durante 8 anos, dedicava parte de seus recursos às obras de caridade junto à comunidade, para o profano, era tido como um homem sério, honesto, enriquecido pelo trabalho com o comércio de sedas, cristão e freqüentador da Igreja; pelos seus discípulos era admirado pela sua cordialidade e pela grande dedicação aos trabalhos maçônicos.
Na própria família, outros membros se interessaram pelo ocultismo: sua irmã mais velha, Claudine (Madame Provensal), seus irmãos Antoine e Pierre-Jaques, seu sobrinho Jean Baptiste Willermoz Neveu.
No meio ocultista era admirado pela solidez de seus conhecimentos que eram praticados juntamente com um pequeno grupo de esoteristas, escolhidos criteriosamente no seio da Maçonaria.
Durante sua longa existência, Willermoz manteve correspondência com os principais ocultistas de sua época: Martinez de Pasqually, Saint Martin, Joseph de Maistre, Savalette de Lange, Brunswick, Saint Germain, Cagliostro, Dom Pernety, Salzman e outros ocultistas alemães, franceses, ingleses, italianos, dinamarqueses, suecos e russos.
Em 21 de novembro de 1756, sua Loja filiou-se à Grande Loja da França, com a evolução dos trabalhos, Willermoz fundou uma Obediência, composta por 3 Lojas, tornou-se o primeiro Grão Mestre da Grande Loja dos Mestres Regulares de Lyon. Em 1760 as 3 Lojas contavam com 62 membros: A PERFEITA AMIZADE: 30 membros, A AMIZADE: 20 mem-bros, OS VERDADEIROS AMIGOS: 12 membros. Foi eleito presidente da GRANDE LOJA DOS MESTRES REGULARES de Lyon, em Maio de 1760.
Willermoz elegeu-se Grão Mestre da Grande Loja de Lyon em 1761 e 1762 mas não aceitou a renovação de seu mandato em 1763 para que pudesse dedicar-se mais à parte oculta. Em 1763 fundou juntamente com seu irmão Pierre-Jacques, o Capítulo dos Cavaleiros da Águia Negra, nele, entraram os irmãos mais instruídos das Lojas de Lyon. As reuniões eram secretas para evitar a curiosidade dos demais irmãos, a admissão de novos membros foi fechada, estudavam particularmente o simbolismo e a importância dos diversos níveis e os catecismos dos diferentes graus e sistemas maçônicos.

Willermoz e seus companheiros não aprovavam os graus de vingança contidos em muitos sistemas maçônicos, com relação aos exterminadores da Ordem do Templo
Os membros do Soberano Capítulo da Águia Negra, estariam ligados aos Iluminados de Avignon, dirigidos por Dom Pernety, este, tinha contato com a Estrita Observância Templária, na Alemanha e provavelmente também com Dom Martinez de Pasqually e por seu intermédio, possivelmente, foi que Willermoz conheceu Pasqually e que se tornou Delegado Geral da EOT para a região de Lyon.
Com a aprovação da grande loja da França, os maçons de Lyon desenvolveram seus trabalhos sob o comando de sua própria Grande Loja, Willermoz deixou o Grão-Mestrado em 1763, tornando-se simples Guarda-selos e Arquivista, nunca deixou de exercer alguma função na Maçonaria.
Willermoz acreditava, desde a sua primeira admissão na Maçonaria, que Ela detinha o conhecimento de um objetivo possível e capaz de satisfazer o homem honesto. Trabalhando e estudando por mais de vinte anos, troca de correspondências intensas com os Irmãos mais instruídos da França e do exterior e os arquivos da Ordem em Lyon, forneceram-lhe os meios para encontrar os inúmeros sistemas, alguns mais singulares que os outros.
Willermoz era em primeiro lugar, um discípulo esforçado e dedicado aos estudos, em segundo, foi um grande organizador de sistemas iniciáticos, grande pesquisador, ativo e prático; pela relação com Dom Pernety, deu uma identidade alquímica ao seu sistema maçônico cujo objetivo era alcançar a iluminação e realizar a Grande Obra.
Em uma viagem à Paris, em maio de 1767, encontrou Bacon de la Chevalerie, substituto da Ordem dos Elus-Cohens do Universo, no Grão Mestrado, foi nessa oportunidade que constatou pela primeira vez com a doutrina de Martinez de Pasqually. Tinha 37 anos de idade quando foi iniciado por Pasqually na Ordem dos Elus Cohens, em cerimônia realizada em Versailles, proximidades de Paris.
Bacon colocou Willermoz em contato também com outros irmãos, juntamente com seu irmão Pierre Jacques, entraram na nova Sociedade, cujo chefe era Pasqually, um dos sete chefes soberanos universais da Ordem, como ele próprio se apresentava. Iniciado há 18 anos na Maçonaria e possuidor de todos os seus graus, compreendeu que até aquele momento nada sabia da Maçonaria essencial e que havia um vasto campo de conhecimentos a percorrer.
Pasqually concedeu-lhe o direito de estabelecer uma Grande Loja do novo rito em Lyon e deu-lhe o título de Inspetor Geral do Oriente em Lyon e fez com que entrasse como membro não residente do Tribunal Soberano de Paris. Em 13 de março de 1768, Bacon de la Chevalerie ordena Willermoz no Grau Rosa Cruz.
Desde 1768 Willermoz mantinha correspondência com Saint Martin, na época secretário de Pasqually, formou-se entre ambos uma forte amizade, estavam em início de carreira iniciática e ainda bastante imaturos na Iniciação Real.
Através de Saint Martin, Willermoz em julho de 1770, Pasqually falou-lhe de seus mestres, sendo ele próprio apenas um intérprete, possuidor do terceiro grau de uma Ordem originária dos Lendários Rosa Cruzes.
A idéia de Willermoz de adaptar o sistema da Ordem dos Elus Cohens do Universo, de Pasqually, dentro da Maçonaria, não era tarefa fácil. O sistema maçônico representa a Iniciação Primitiva e é tão antigo como a própria raça humana. Sua ritualística está inserida dentro de um contexto histórico, simbólico e iniciático.
Willermoz procurava obter por carta, maiores esclarecimentos acerca dos problemas que iam surgindo no transcorrer de sua jornada iniciática. Os resultados positivos da iniciação não apareciam tão rapidamente como os discípulos desejavam, era necessário muito trabalho como em qualquer sistema de iniciação, para que surgisse alguma manifestação de aprimoramento espiritual.
Difícil era encontrar adeptos capazes de professar uma Maçonaria espiritualista, havia homens dispostos a praticar a Maçonaria Ocultista tanto em Lyon, como em Metz, em Estrasburgo, em Paris, em Versailles; Willermoz mantinha contato com todos esses grupos de maçons.
Os contatos com os grupos de maçons da Alemanha foram intensos a partir de 1772. Através do Venerável da Loja A Virtude, de Metz: Meunier de Précourt, Willermoz ficou sabendo da sobrevivência da Ordem do Templo na Alemanha através dos Cavaleiros Teutônicos que era a herança externa e dos Rosa-Cruzes, o legado interno.
Em 1772, Willermoz recebeu uma carta da Loja La Candeur, de Estrasburgo, confirmando existir na Alemanha, uma Obediência Maçônica rica pelo número e pela qualidade de seus membros, fundada por Superiores Incógnitos e denominada Estrita Observância Templária. Seu Grão Mestre era o Barão de Hund e o objetivo: a prática das virtudes cristãs e o desenvolvimento moral e espiritual de seus membros.
Tratava-se de uma Maçonaria Templária e Ocultista, seus membros estudavam a Cabala, a Alquimia e o Ocultismo em geral, Willermoz foi conquistado ao tomar conhecimento dos objetivos altruísticos e da seriedade dos seus trabalhos.
Em junho de 1772, a EOT tornou-se Lojas Reunidas Escocesas e o Barão de Hund foi substituído pelo Duque Ferdinand de Brunswick.
Em dezembro de 1772, Rodolphe de Salzmann, Mestre dos Noviços do Diretório de Estrasburgo, chega a Lyon para fazer a iniciação de Willermoz e de seus companheiros na Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, como Willermoz e Salzmann, ele também era um grande admirador do sistema maçônico.
Paralelamente, Willermoz e Saint Martin, que em setembro de 1772 havia se instalado em Lyon, na casa de Willermoz, trabalhavam juntos para o aperfeiçoamento do sistema maçônico com base na doutrina e no sistema oriundo da Ordem dos Elus Cohens e dos demais sistemas existentes que conheciam. Willermoz pretendia através da Maçonaria, a adaptação dos ensinamentos secretos recebidos de Pasqually.
Saint Martin permaneceu um ano em Lyon, seguiu depois para sua cidade natal e depois para Paris.
Em carta de dezembro 1772, Willermoz pedia a sua filiação na EOT, o Barão Weiler respondeu-lhe poucos meses depois, que nada aceitariam que fosse contrário à sua religião de nascimento e a seus deveres de cidadãos como fiéis súditos do Rei da França. Conservaram também a ligação com a Grande Loja da França no que dizia respeito aos graus simbólicos; a ligação com a Grande Loja da Alemanha foi estabelecida somente em relação aos altos graus.
Em 1773, o Barão Weiler foi a Lyon e iniciou Willermoz e seus companheiros na EOT, deixou instalada a Loja Escocesa Retificada: La Bienfaisance, em condições de desenvolver independentemente seus trabalhos, isso aconteceu em novembro1773.
Face à decadência da parte externa da Ordem dos Elus Cohens, ocorrida a partir do ano de 1772, com a partida de Pasqually para São Domingos, Willermoz encontrou no sistema maçônico um substituto à altura. Nesse novo sistema, pretendia espargir as luzes recebidas na senda interior dos Elus Cohens e receber também a manifestação do Agente Invisível; Willermoz retirou, a partir dessa época, os melhores ensinamentos de suas operações e a luz começava a brilhar no seio das trevas.
Como a Ordem dos Elus Cohens, a EOT possuía dez graus, sendo: três simbólicos, três intermediários e quatro superiores, esta última classe, de origem templária.
Willermoz obteve a corrente de Jacob Boheme ao ser iniciado por Salzmann e confirmada na linha mais antiga dos Templários, ao associar-se com a EOT.
Willermoz recebeu o grau de Grande Professo no Convento de Gaules, realizado em Lyon entre 25 de novembro a 10 de dezembro 1778, também conseguiu com Salzmann, que se introduzisse após o sexto grau da EOT, os dois graus denominados: Professo e Grande Professo que continham a doutrina da Ordem dos Elus Cohens.
A EOT da região de Auvergne (Lyon) ficou conhecida pelo nome de Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa ou Maçonaria Retificada. Os graus simbólicos ficaram sendo quatro: Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês; a classe superior ficou denominada: Cavaleiro Professo e Grande Professo.
Willermoz, tendo conseguido introduzir no sistema maçônico de Lyon, da EOT, a filiação espiritual e doutrinária de Pasqually, tentou fazer o mesmo nas outras obediências maçônicas.
No seu conceito, o RER tinha por objetivo o estudo das ciências ocultas, pretendia unir o ocultismo com o cristianismo, estudar o esoterismo do cristianismo, considerar a Cristo, o Reparador; crê em Cristo porém renega a autoridade do Vaticano, de Catolicismo de Roma.
No RER seus princípios aparecem como cristãos, fundamentados nos evangelhos. O Willermosismo tendeu sempre para o agrupamento das fraternidades iniciáticas, à constituição de coletividades de iniciados dirigidas por centros ativos religados ao iluminismo.
No convento de Wilhemsbad, em 1782, Willermoz encontrou o apoio precioso dos dois príncipes dignatários da EOT: os irmãos: Ferdinand de Brunswick, que presidiu o Convento, e Charles de Hesse, recebeu a missão de organizar o RER e foi designado Soberano Delegado Geral do Movimento para a região de Lyon.
Conseguiu também que todos os irmãos da Ordem Interior recebessem o título de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa. E no novo conjunto de graus, no número de sete, continha todo o sistema doutrinário de Pasqually, organizado inteiramente em Lyon através de: Willermoz, Saint Martin, Grainville, Savaron e outros e que a partir do Convento de Wilhemsbad passou a ser adotado igualmente em toda a Alemanha e resto da França. O título "Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa" originou-se do nome da Loja "La Bienfaisance", de Lyon, que abrigou os primeiros cavaleiros.
Com auxílio do Invisível, Willermoz e Saint Martin adquiriram um lugar de destaque na organização da Maçonaria Retificada e da Ordem Interior; iniciaram adeptos de toda a França e Alemanha, porém sabiam que o sucesso não seria fácil, Saint Martin disse à Willermoz: "o espírito é como o vento, ele sopra quando quer e como quer e ninguém sabe quem ele é e de onde vem...".
Foi também no seio desta Loja que foram recrutados os membros do Conselho dos Onze que fundaram a Loja Elue et Cherie pela ação do Agente Incógnito, o mensageiro divino esperado desde o tempo de Pasqually.
Willermoz falava sobre a iniciação: Aquele que me a transmitiu não é um ser inspirado interiormente, nem um magnetizador privilegiado, nem um ser versado nas iniciações antigas, que conhece muito menos que nós.
É um ser que goza de todos os sentidos ao escrever, que escreve quando lhe fazem pegar na pena, sem saber nada do que escreverá, nem a quem escreverá. Uma potência invisível, que não se manifesta a ele senão por diversas partes de seu corpo, toma a mão como se toma a mão de uma criança de três anos, para lhe fazer escrever o que se deseja. Ele não pode conduzir a ação, mas pode resisti-la por ato de sua vontade, que então pára de escrever; ele lê então o que sua mão escreveu e é o primeiro admirador do que vê, muitas vezes nada compreende de que escreveu, foi prevenido, desde o tempo que esse dom extraordinário começou a se manifestar nele, que escreveria coisas que não deveria compreender porque não foram escritas para si, mas para aqueles a quem elas se destinavam.
O próprio Agente tinha seus superiores, "as potências celestes superiores ou secundárias" que dirigiam seus trabalhos e faziam-no escrever. Eram depósitos de conhecimentos admiráveis, uma doutrina da verdade.
A Doutrina da Verdade ensinava que Phaleg deveria ser reverenciado como fundador da Maçonaria, no lugar de Tulbacain. Phaleg teria reagrupado pela primeira vez homens em Lojas. Esta palavra Loja, ensinou o Agente, teria se originado da palavra primitiva Logos ou Verbo. O Agente trouxe um reconhecimento divino às Lojas. Lyon tornou-se o depósito e centro dessa bem-aventurada Luz, que a partir desse local, propagou-se por toda a Província, pela França e outros países.
Vários Homens de Desejo foram chamados em presença dos Martinistas de Lyon e se submeteram às formalidades de Iniciação na nova Ordem.
Saint Martin ajudou Willermoz a colocar em ordem os Cadernos de Instrução dos irmãos. Entre 1785 e 1787, foram iniciados várias pessoas, oriundas de inúmeras localidades, a organização dos círculos de Iniciados em Lyon, recebia a inspiração do Agente, o Superior Incógnito.
Desde a revelação, no dia 5 de abril de 1785, Willermoz, com 54 anos de idade, não cessou de trabalhar, inspirado pelo Agente, procurava suscitar nos corações de seus Iniciados, não apenas o conhecimento das coisas transcendentais, mas a convicção de que entravam em uma Loja onde a Luz estava presente e cuja aliança com a Divindade fazia irradiar dessa Loja a Luz dos últimos tempos sobre todas as nações, e que os Maçons Retificados de Lyon formavam os elementos do novo templo escolhido.
Em 1793, quando eclodiu a Revolução Francesa, o terror tomou conta da cidade de Lyon, Virieu desapareceu, Grainville e o veterano Guilaume de Savaron (irmão de Gaspar de Savaron), oficiais do exército em Lyon, foram condenados pelo tribunal e fuzilados; Antoine Willermoz e Bruyzet foram guilhotinados. A obra maçônica de Willermoz sofreu a perseguição da Revolução, muitos Templos Retificados ou Cohens foram obrigados a fecharem as portas. O sistema maçônico Retificado dos CBCS passou para a Suíça, fugindo dos Revolucionários e depois de Napoleão, dando origem ao Sistema Retificado Moderno, mais tarde esse sistema voltou à França e recentemente à Alemanha.
Muitos fugiram para a Suíça, alguns para o campo, o grupo de Iniciados de Lyon ficou praticamente extinto, Willermoz foi à uma casa retirada onde se reuniam os Iniciados e em dois baús colocou os arquivos e os trouxe para a cidade, no dia seguinte aquela casa ficou reduzida a cinzas.
Na casa onde se alojava em Lyon, caiu uma bomba que atingiu um dos baús, desmanchando-o com todos os documentos, Willermoz fugiu levando o que restava dos documentos e colocou-os em mãos seguras; parte deles ficaram com seu sobrinho Jean Baptiste Willermoz Neveu.
Willermoz, como Périsse, seguiu as funções de caridade em hospitais e escapou da condenação, ação de seu irmão Pierre-Jaques Willermoz, médico, foi decisiva para salva-lo da Revolução.
Passada a tormenta revolucionária, graças aos rituais que havia salvo, Willermoz reorganizou a Maçonaria Espiritualista, até a morte procurou como objetivo, as práticas da virtude e da caridade e com que as Lojas e Capítulos fossem centros de seleção para os grupos de Iluminados.
A primeira parte de sua obra era clara, a segunda, oculta, Willermoz continuou sua obra sobre a terra, 19 anos após a partida de Saint Martin para o Mundo Invisível (1803), os dois Adeptos completavam-se, Willermoz destacou-se pelo seu dinamismo e pela capacidade de organização, usava a Maçonaria como centro de recrutamento para a Ordem Interior. Saint Martin, mais intelectual, procurava em todos os meios onde se encontrava, os Homens de Desejo para colocá-los em Sua Senda Interior. Willermoz escolheu a Maçonaria como base fundamental para preparar o Iniciado e colocá-lo em condições de marchar na Senda da Luz entre as duas colunas, até chegar ao Oriente, onde encontrará a coluna invisível que o ligará com a Divindade.
Para Willermoz, como para Saint Martin e demais Mestres do Ocultismo Ocidental, a Iniciação Real é um trabalho eminentemente pessoal, interior.
O Homem ao encarnar ficou com o espírito por desenvolver a partir de uma centelha espiritual. O receptáculo é a Alma Humana, a Pedra Bruta que deverá ser transformada e inserida na obra de construção do Templo Universal, a Jerusalém Celeste das almas regeneradas e imortalizadas pelo Verbo Divino.
Poucos anos, antes de sua morte, ele confiou os arquivos à seu sobrinho, seu Iniciado e posteriormente foram legados à Élie Steel e depois à Papus (1895).

Após sua morte subsistiram Lojas de seu sistema trabalhando com êxito em toda a França, Alemanha e Itália.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

MUNDO FANTÁSTICO DA MAÇONARIA


Ir. Alberto Gabriel Bianchi

O que viemos fazer aqui na Loja? Construir prédios, fazer filantropia? Fazer discursos, fazer trabalhos filosóficos? Não precisamos vir na Loja para fazer tudo isso. Aqui estamos para compartilharmos o conhecimento, selarmos os laços de amizade que nos unem como verdadeiros Irmãos. Congregamo-nos para dar e receber conhecimentos.

Estamos aqui para aprender, para entender o que é a Maçonaria e o que ela quer. E, para isso, ela exige que completemos um curso. E no que consiste este curso? Ouçam, Vejam e Escutem, EM SILÊNCIO, assim vocês verão e entenderão toda a beleza da verdadeira Maçonaria.

É um ano e meio ou dois, só, para ouvir e aprender o básico. Depois vocês estarão aptos a falar com conhecimento e sabedoria. Vocês se tornarão Mestres e os Mestres têm que falar para ensinar, todavia, saber o que falar.

 Aí alguém vai me perguntar: e os Mestres de hoje, por que não adotam este critério? Por que não seguem essas regras?

Porque eles não aprenderam de forma correta.    Não foram ensinados de forma adequada. Foi tudo na base do “achismo”, do eu acredito que..., do improviso, sem o devido domínio da matéria.

 A Maçonaria é ajudar os outros, afirmam alguns. O que não é verdade. 

A Maçonaria não é uma instituição preparada para construir prédios, para fazer filantropias, ficar aprovando projetos sem parar, como em muitas Lojas, etc. Para isso existem outras instituições, preparadas para essa finalidade. A Maçonaria existe para formar Construtores Sociais, transformar o homem material em homem moral, resumindo toda moral de aperfeiçoamento humano. Ministra seus ensinamentos por meio de Símbolos e Alegorias. Ensina o homem a desvencilhar-se dos defeitos e paixões e ser exemplo a toda sociedade de homens livres. Não é proibido que Irmãos ajudem as pessoas necessitadas, que Irmãos se unam para ajudar ou dirigir entidades que prestam solidariedade aos menos privilegiados. A Maçonaria, primeiro, tem que formar e preparar o homem.

 Vocês que acabaram de entrar para a Maçonaria, que serão o nosso futuro e que irão dirigir nossa entidade; vocês foram indicados e entraram pelo processo de Iniciação, através do qual lhe exigiram uma porção de compromissos e lhes fizeram uma porção de promessas, porque confiaram no seu Padrinho, confiaram no Venerável Mestre, confiaram na diretoria da Loja, enfim, confiam nos Maçons.

Essa confiança deve ser retribuída e, portanto, não tenham medo de errar, todavia, não errem nada fazendo.

Quem escolhe entrar para a Maçonaria está aceitando ter uma nova forma de vida. Estão aceitando novos compromissos, novos desafios. Não sendo por isso, não tem sentido entrar para uma Instituição dessa natureza que é cara financeiramente e nos toma muito tempo. É uma Instituição séria e muito exigente. Para aqueles que levam com responsabilidade o estudo e a prática, o sucesso em algum setor da vida será infalível.

Saímos do mundo profano,     como chamamos o mundo comum onde vivemos. Ora, se chamamos assim o mundo que vivemos é porque o mundo da Maçonaria é diferente e, se é diferente, devemos vivê-lo como tal, de forma diferente.

Passamos pelo misterioso processo da Iniciação e,simbolicamente, saímos do útero da mãe natureza, lá das profundezas da terra e recebemos a Verdadeira Luz, renascemos para um mundo novo.

Depois do renascimento simbólico, estaremos aprendendo a dar os primeiros passos no seio do novo mundo. Vamos aprender a falar balbuciando palavras estranhas e diferentes daquelas que estamos acostumados. Vamos nos alfabetizar aprendendo a ler, letra por letra. Aprender o som de cada uma e, depois, soletrá-las, formando palavras e depois frases. Paralelamente, vão nos ensinar que somos uma Pedra Bruta e temos que lapidá-la e, para tanto, devemos aprender a nobre arte de Construtores Sociais, entendendo que somos Pedra Bruta, somos, também, o Malho e o Cinzel, portanto, somos Obreiros e temos que trabalhar para nos polir. Vamos aprender a gramática, depois a lógica e, em seguida, a retórica, para que possamos nos comunicar neste mundo novo que estaremos a viver.

Depois de transformá-lo em Maçom, deverá ser aperfeiçoado, para que ele seja verdadeiramente um “Construtor Social”.

Maçonaria é simples, não há necessidade de complicá-la.

É preciso trabalhar, então, mãos à obra.

Para tal mister, existe um Ritual  para cada Grau, que simplifica e facilita tudo.

Fonte: omalhete.blogspot.com.br

domingo, 27 de março de 2016

ESTUDAR OS FUNDAMENTOS


 Frater Lucas Madsen

Essa pode ser a melhor resposta para toda estagnação. Se um conhecimento não está fazendo sentido, se uma técnica não está trazendo os resultados esperados, se uma ideia perdeu sua aplicabilidade... Não será isso uma grande falta de estudo dos fundamentos?

Na minha cabeça, o fundamento é que estabelece a base e que, ao mesmo tempo, justifica todo o sistema que embasa. Em um esporte, estudar os fundamentos significa entender os passos mais básicos que são permitidos pela regra, compreender os movimentos mais simples, entender a mecânica. Em uma disciplina, significaria entender os pressupostos teóricos, os objetivos, os mecanismos pelos quais se atua para atingir o conhecimento.

Muitas vezes, os fundamentos não são muito entusiasmantes para quem os estuda ou treina. Parecem coisa de iniciante, técnicas que nunca poderão ser utilizadas na realidade. Frequentemente, quando os estudamos, somos incapazes de perceber como o mestre faz para utilizá-los. No xadrez, aprendemos que é preciso primeiro assegurar controle sobre o meio do tabuleiro e abrir espaço para desenvolver todas as peças. Mas quando vemos um profissional jogando, ele pode escolher começar sua abertura pelos cantos, mantér peças presas até o meio do jogo.. E assim, parece cuspir em tudo que o iniciante está aprendendo.

Mas, talvez, a maestria consista justamente em ser capaz de compreender o fundamento o suficiente para ser capaz de aplicá-lo de maneiras não óbvias.

Como observadores, às vezes sentimos a ânsia de repetir os movimentos complexos dos mestres. O faixa branca quer ter a agilidade dos punhos de seu mestre, manejar as armas com sua desenvoltura... O jogador mediano quer executar os dribles mais bonitos, fazer jogadas criativas, aproveitar do razoável talento que desenvolveu.

Talvez o que diferencie o mediano do amador seja a capacidade de imitar alguns dos movimentos do mestre. Enquanto o amador pena para manter o equilíbrio em um paço simples, talvez o mediano seja aquele que foi capaz de dominar minimamente a base, a ponto de executar alguns movimentos mais difíceis. É aquele que entendeu a disciplina, e por isso é capaz de desvendar seus códigos e escrever algumas frases que os utilizam.

O que incomoda o mediano, no entanto, é que ele é incapaz de ir além desse ponto. Por mais que se esforce, não consegue superar o próprio limite a que parece ter chegado.

Se todo conhecimento é espiral, ou seja, se é um constante retorno circular que, no entanto, avança a cada volta, então a solução de saída para o mediano é estudar de novo a base. Quando estudou da primeira vez, terá entendido o simples. Quando avança para o mais complexo, consegue compreender para que aquela base serviu. Estudar a base de novo o fará ver tudo com novos olhos, olhos de quem sabe para que serve, como se aplica.

Por que falar disso em um blog sobre espiritualidade? Porque agora entendo que talvez a frase de um monge budista de vários anos atrás tenha finalmente entrado em mim. Dizia ele – de uma forma que talvez beire a arrogância ou a confiança absoluta em seu método de iluminação – que todas as religiões possuem em si o cerne da verdade, mas que o budismo é aquela que oferece o caminho mais rápido para o entendimento dela. Assim, enquanto tantas outras dam voltas até chegar ao centro, os budistas caminham em linha reta.

Não sou conhecedor da verdade e nem um iluminado, de tal forma que não posso fazer testemunho do que diz o monge. Mas o que sei dizer com certeza é que, muitas vezes, textos sobre espiritualidade nos empurram daqui para lá e de lá para cá, desenvolvem várias faculdades, nos ensinam coisas interessantes, mas falham em nos mostrar o fundamento. Resultado: ao final estaremos no ponto de início, fazendo as perguntas mais basilares: por que? Para que? Para quem?

Se arriscar mais um parágrafo, finalmente direi: não será essa a base da violência e intolerância religiosa inútil? A atenção excessiva aos detalhes? A compreensão equivocada de uma arte sublime, ainda não dominada por um leitor indisciplinado? Cada situação exige uma postura diferente de uma pessoa, mas o tolo tende a buscar regras gerais onde há apenas adaptação a uma situação específica. O segredo do mestre é a chave que abre a porta para a criatividade.

www.santuario1.blogspot.com.br/


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